quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O caroço.

Num certo dia, Ursula acordou disposta para sair pra fumar um bec, queria fumar num pasto com sol, queria lembrar a epóca em que era como uma jumenta amarrada no tronco, pelos escrotissimos pais. Ela sente saudade dessa dor, voltou coradinha do passeio e mais animada também, passando pelo bosque de Cuba, ela viu um mendigo se aplicando de pedra numa lata de coca-cola, olhos fixados ao nada especial, nado sincronizado de retinas.
O mendigo estava completamente nu, numa imagem cadavérica exibindo tatuagens antigas e meio apagadas com o tempo, cagava, e aquilo era uma visão bestial.
O mendigo tinha cabelos curtos e exageradamente sujos, uma barba-nuvem-cinza que alcançava a sua barriga estúpida de shopp. Ele ouvia um Walk man e parecia entretido, cuspia e remungava, mas sempre atento para voz que lhe falava, e lhe falava e repetia várias vezes.
Úrsula não resistiu, nem mesmo ao fedor da bosta, resolveu ir até lá e sentou-se ao lado do velho, que agora limpava o cu com suas tristezas.
-Senhor...
-Eu não presto!
-O quê? Não, não iria te perguntar isso, eu só queria saber que mundo povoa a mente de um louco chupando bala de suor.
-Eu não presto!
-Posso escutar um pouco?
-Eu não...
Úrsula imediatamente põe os fones no ouvido e de certo ouve: ...Presto!
-Viu?
Eu não presto, eu não presto, eu não presto, eu não presto, eu não presto, eu não presto, eu não presto...
-Deus! Isso é loucura! Isso é droga! Isso é bosta! Eu não presto! Eu não presto! Deus, quem foram os monstros que lhe deram isso?
-Os meus pais... me acostumaram desde criança a escutar isso.
-Não! Não escute mais! Tire o fone! Jogue-o fora!
-Não adianta! Isso tudo já ta gravado aqui._ E apertou a cabeça com as mãos.
-Meu Deus! Que horror!
Úrsula vai embora a base de tranquilizantes, e a noite mesmo assim não consiguirá dormir, obcecada pela certeza de que não presta pra nada.

G.C segundo ela mesma.


Geruza Cardoso lançou um livro chamado "Mil não", competiu comigo no top10 dos escritores com a mão no queixo, fazendo cara de "eu sou boçal, mas desfarço" na contra-capa. Mas... com o meu esforço, ela perdeu.
Geruza Cardoso, ou GERUZA CARDOSO, ou Geruza C. ou G.C, segunda ela mesma, lançou e tentou um novo livro, dessa vez intitulado de "Mil nãos para tudo".
Fiquei no que eu chamo de 5° categoria com talento. Só porque ela tem seios fartos de saudade.

Angustia

Havia acordado já fazia duas horas, mas continuava na cama; esparramado, numa letargia daqueles que simplesmente não querem encarar, é assim mesmo, é incrivel como um dia inteiro passa em branco e não se faz nada de interessante.
Moacir bem sabia disso.
Mas, de toda forma, alguém teria que juntar os cacos de ontem. Ainda estava bêbado. Com um hálito ruim e uma lembrança vaga e dolorosa da noite passada.
No apartamento de cima do dele, um aniversário de criança começava cedo, ou seria ele que teria acordado tarde?
Não tinha noção do tempo, quanto tempo se passou mesmo? Ontem pela manhã saiu de casa para respirar ar puro, finalmente. Já tinha decidido se matar, e estava tudo pronto, até comprou chumbinho, mas ao sair do armazem, já tinha decidido que iria cortar os pulsos, seria mais corajoso, e queria mostrar que tinha colhões.
Na noite desse mesmo dia resolveu se embriagar, e usou todas as drogas em ordem alfábetica, leu, escreveu horrores, e ficou de porre. Uma puta, que encontrou na rua achou ele bastante pirado e se mandou roubando o resto do dinheiro que ele havia tirado do banco nessa manhã.
Emenda-se um dia no outro de dormir pouco, um sono-lanche, não sabia a um bom tempo o que era um sono completo, como aqueles banquetes com direito a sonhos e tudo, Moacir não sonhava mais.
Juntou as mãos com os braços, os pés com as pernas, a mente com a razão, levantou num ímpeto só!
Abriu as cortinas da janela e se assustou com o tempo frio, estava chovendo lá fora, e Moacir poderia jurar que estava fazendo um sol sádico, mas se enganou._ O tempo sempre lhe enganou com grande esmero e boa vontade.
Moacir juntou as forças numa cúpula de ar, bufou. Requentou um café e tomou o liquido negro com a cara feia, ao desperdicio da luz do abajú.
Ligou a tevê para esquecer mais nitidamente do que não lembrava de vez, do que era vago, e a tevê, ora pois, distrai qualquer cabeça bêbada; qualquer cabeça ôca, cabeças chatas.
O natural é diversas vezes ensaiado para se tornar natural, e ele cabulava aulas.
Da janela lateral ele via o mundo que amamenta as pessoas cansadas.
Pensa:
"Eu sempre esqueço que essa cidade apodrece aos domingos ..."

Charles Bukowski - O cover da vez.

Para os jovens escritores que estão começando a beber.
ah, sei lá. De vez em quando, eu ando querendo a xereca-mental da Fernanda Young.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Não há pés bonitos.

Noutro dia eu tava passando na rua, eu fui comprar pão, e sem querer eu escutei uma mulher muito gostosa falando com o sobrinho dela, que vai, tinha lá seus 17 para 19 anos. (Eu sei que são parentes porque eu conheço os dois, pelo menos de vista, oquei?)
Ela dizia assim:
"Se eu fosse você eu começava a me tratar bem, porque eu achei uma rola bem maior que a sua."
Nelson Rodrigues estava certo: "Não há pés bonitos."

É pura preguiça,

O problema todo é começar, quando eu começo eu não paro mais.
Isso, de uma certa forma, é bom.
Mas, o problema todo é começar.
Eu tenho preguiça, e não nego. E sou velho, e sou chato, e tudo me entendia.
Até o que eu, enfim, começo com a coragem de um corte no corpo.
_Como minha não tão sucedida série._
É porque é saga, entende? É compromisso. E eu sou aquariano.
Não sou revoltado, não acho que a vida me deve alguma coisa, eu só fico aqui no meu canto, de vez em quando no bar, esperando surpresas com gosto de muitas frutas.
A preguiça é um pecado tão chato de assumir, que os ricos chamam de blasé.
Mas não passa de preguiça.
Ando sem criatividade, e o artista é isso, levando em conta que até o poeta fecha o livro.
Vou procurar ser simples, atuar em outros ramos, experimentar o hare krishna e começar esbanjar paz por todos os poros. Acido e vodca, cogumelos.
Entrarei para um grupo de apoio para os alcólatras anônimos, todas as segundas-feiras farei um sortilégio.
Logo depois da noite de apoio, em que eu, lá na frente recitarei tudo aquilo que eu decoro facil: "Eu sou feliz, sou mais forte que o vicio." Vou sair correndo para o bar mais próximo e me entupir de alcool, vou experimentar trair o movimento.
Qual é a graça de beber socialmente? O bom de beber é se embriagar.
Vou procurar ser asmático e entrar pra igreja universal só para debochar depois aqui no Jesus, transar com homens, foder com mulheres, treparei com homens e mulheres juntos, "mulheres e crianças primeiro." Vou ser voyer das sete putas do cafetão, irei vê-las transar com carecas barrigudos que sofrem de ulcéras por guardarem muita raiva, daí ficarei de lá, só observando, esperando os instintos fazer efeito, como o veneno que eu tomo todas as manhãs.
Serei chicano, burguês, aviãozinho, limpo, vou dar um tempo com as drogas, beber menos, pintar o cabelo, podar os pentelhos. Serei Sodoma e serei Gomorra nesses dias inveterados pelo tempo.
Aposte tudo!
Porque em tempos de lágrimas meu bem, chorar miséria é bobagem.

... No teatro (Continuação)

Sabe que eu gosto muito de observar as pessoas quando elas já estão sendo observadas? Eu gosto de estudar esse misto de improviso e vontade de agradar. Talvez eu seja um pouco arrogante no meu ponto de vista, na verdade, a verdade também poderia ser: Eles só querem acertar e sentir bem consigo mesmo. Sabe diretor, às vezes eu também odeio as pessoas, e me odeio muito mais por isso, quando o senhor me passou um exercício de chorar e eu não consegui, eu não consegui chorar porque sou meio encruado de emoções, o senhor que pediu para todos imaginarem a pessoa que mais ama morta, e eu não consegui chorar; até imaginei, depois de um tempo pensando. Mas as lágrimas não vinham, sertão eu estava, seco eu fiquei. Nem minha mãe, nem meu pai, nem aquilo tudo que é insubstituível me fez derramar o que se parece com soro.
Você entende?
Honestamente, eu acho que o senhor quando sai dos ensaios, ou toma uma pinga ou uns ansíoliticos.
Você que está com aparência absurdamente exausta...
Tu que concentra o talentoso Gabo até ele ficar artificial e não sorri mais, Gabo que também está no grupo das pessoas que querem te agradar.
Eu sou um hedonista fracassado somente porque eu tento ser um, a nossa única diferença é que eu me divirto. Você se esforça, eu tenho preguiça.
Olha só, não fale mais em educação em escolas públicas, ninguém ta nem aí pra isso, seja tão reciclável quanto sua arte, perecível quanto minhas mágoas.